Coluna No passo da palavra
Pormenores
Há poucos dias, na loja entraram mãe e filha, lindas, a filha, cópia fiel da mãe numa versão bonequinha, seis anos talvez…
Já me encantei de cara, ao cumprimentar-me. Atenta a tudo, eu percebia os olhinhos dela percorrer a loja, quase saltando curiosos.
A mãe experimenta uma sandália, clássica em verniz preto; de repente veio a pergunta depois de ouvir a conversa dos adultos:
_Tem vacas de verniz?
E se eu já havia me encantado com aquele ser, agora mais ainda.
Respondi que não, que aquele couro era trabalhado em indústrias especializadas até chegar naquele ponto, e que eles usam várias cores e texturas para deixar o couro bonito para a confecção de sapatos, bolsas, cintos e outras tantas coisas.
Os olhos dela brilhavam como estrelinhas, pareciam contentes com o aprendizado.
A mãe satisfeita com a escolha disse:
_Vou levar essa!
Num ato rotineiro abotoei a fivela que havia ficado aberta ao ser experimentada.
Outra vez a menina:
_Porque você está fechando a fivela se a mamãe vai ter que abrir quando for calçar?
A garota era mesmo um poço de minudência.
Eu disse:
_Poderia deixar abertas as fivelas, mas a estética fica feia, sandália desafivelada tem um ar de descuido. Talvez eu nem soubesse mesmo o que dizer…
Ela fez uma interjeição longa:
_Ahh!
Perguntei:
_ Você já viu como faz uma caixa? Ela disse que não.
Peguei a caixa desmontada atrás do balcão e comecei a dar forma de caixa e aqueles olhinhos dançavam nos movimentos.
Caixa pronta; peguei o papel seda para separar um pé do outro para não se mancharem entre si, finalizando a embalagem, e mais uma surpresa!
Pôs o dedinho num buraco redondo que tinha na caixa e questionou:
_Para que serve isso?
Expliquei a ela:
_ Como o couro já foi vivo precisa respirar, esse buraco é para entrar ventilação evita o cheiro forte e o mofo.
Ela vibrou e já foi logo colocando em prática o que aprendeu:
_Mamãe, quando a gente chegar em casa quero ver se as caixas dos seus sapatos não estão com os buracos virados para a parede, se tiver eles estão sem respirar.
Vendo as duas saírem da loja, me veio Clarice Lispector: “Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri.”.
Eu nada sabia sobre elas.
As pegadinhas da alma daquela menina ficaram.

Raquel Ordones
Uberlândia - MG – BrasilAdministração de empresa / Marketing– setor calçadistaMagistério / Contadora de históriaPoeta / prefaciadora/ orelhista / antologista/sonetista